Victorino converte a paixão pela patinagem num projecto de inclusão social

Aos 23 anos, Victorino Samuel já é muito mais do que um atleta de patinagem em linha. É formador, mentor e referência para dezenas de crianças e adolescentes da cidade de Menongue, província do Cubango, onde decidiu criar a escola de patinagem Free Jump, um projecto que une desporto, inclusão social e esperança.

Natural do município do Cuito, na província do Bié, Victorino vive no Menongue desde os três anos de idade. Foi ali que, ainda jovem, descobriu a patinagem Free Jump, uma modalidade marcada por saltos, truques e obstáculos. O primeiro contacto surgiu de forma simples, através de um vídeo visto na televisão. Bastou isso para despertar uma paixão que viria a mudar o rumo da sua vida, segundo avançou o JA Online.

Em 2014, iniciou oficialmente a prática da patinagem em linha. Desde então, construiu uma trajectória marcada pela persistência, evolução técnica e resultados expressivos. Ao longo dos anos, subiu de forma consecutiva ao pódio nacional por cinco vezes, conquistando primeiros, segundos e terceiros lugares, feitos que lhe garantiram duas convocações à Selecção Nacional de patinagem.

Entre 2022 e 2023, afirmou-se como um dos principais nomes do Free Jump em Angola. No seu primeiro campeonato nacional, em 2022, sagrou-se campeão da categoria com um salto de 1,34 metro. No mesmo ano, voltou a destacar-se como vice-campeão, ao superar a marca de 1,32 metro, confirmando a sua regularidade competitiva.

Já em 2023, no campeonato provincial de Luanda, manteve o bom desempenho ao longo das três fases da prova. Na primeira fase, conquistou o segundo lugar com um salto de 1,44 metro, a melhor marca do período. Na segunda fase, repetiu o vice-campeonato com 1,38 metro e, na terceira, garantiu o terceiro lugar ao saltar 1,36 metro.

Os resultados espelham uma carreira em crescimento, construída com sacrifício, disciplina e paixão, apesar das limitações financeiras e da ausência de apoio institucional.

Da competição à formação

Victorino, movido pelo desejo de evoluir e partilhar conhecimento, frequentou um curso intensivo de Inline Freestyle, realizado na cidade do Cuito, província do Bié. A formação, com duração de 15 dias, reuniu atletas de várias províncias e habilitou-o a exercer funções de treinador em diferentes escalões.

Foi esse passo que deu origem à criação da escola de patinagem “Creche do Roller”, fundada a 9 de Novembro de 2024, data que coincide simbolicamente com o seu aniversário. Mais do que uma escola, o espaço tornou-se um projecto social.

Desde a sua criação, mais de 50 crianças, adolescentes e jovens já passaram pela academia. Actualmente, conta com cerca de 25 atletas, número que varia devido à rotatividade natural dos alunos. Os praticantes estão organizados por escalões, que vão dos iniciantes, dos 2 aos 7 anos, até aos séniores, a partir dos 16 anos.

Massificar a modalidade e incluir

Victorino explica que a iniciativa surgiu da necessidade de massificar o Inline Freestyle no Cubango, onde a patinagem era vista apenas como uma brincadeira de rua, sem reconhecimento desportivo. Hoje, a realidade é outra.

A escola acolhe crianças com diferentes perfis, incluindo alunos com dificuldades auditivas, numa clara aposta na inclusão social. Para o jovem treinador, garantir que todos tenham acesso ao desporto é um princípio inegociável.

“A ideia sempre foi criar um espaço seguro onde as crianças pudessem aprender, crescer e acreditar em si mesmas, independentemente das suas condições”, afirmou.

Além da formação técnica, o projecto aposta na transmissão de valores como disciplina, persistência, respeito e trabalho em equipa, com o objectivo de formar cidadãos conscientes e responsáveis.

Dificuldades que não travam sonhos

Apesar dos avanços, os desafios continuam a ser muitos. A falta de um espaço adequado para treinos e competições é hoje o maior entrave ao desenvolvimento da modalidade na província. O grupo tem utilizado espaços improvisados e procura autorização para utilizar uma área adjacente ao Caminho-de-Ferro de Moçâmedes, embora o ideal fosse uma quadra desportiva oficial.

‎As limitações financeiras também pesam. Cada aluno contribui com uma mensalidade de 6.000 kwanzas e uma taxa de matrícula de 3.000 kwanzas, valores destinados à aquisição de equipamentos como patins, capacetes, joelheiras e cotoveleiras. Ainda assim, nem todos os atletas dispõem do material necessário, o que exige cuidados redobrados durante os treinos.

“Para ir mais longe na modalidade é preciso apoio financeiro e estrutural. Temos recebido ajuda de pessoas próximas, mas ainda é insuficiente para garantir uma evolução sólida”, lamentou.

Em alguns momentos, admite que pensou em desistir, sobretudo pelas dificuldades nas deslocações para outras províncias. No entanto, a responsabilidade perante os alunos falou mais alto.

“Existe uma geração que olha para mim como referência. Desistir seria quebrar os sonhos de muitos jovens”, sublinhou.

Conquistas e futuro

Victorino Samuel soma, até ao momento, 13 medalhas conquistadas em competições nacionais, com destaque para as provas realizadas em Luanda. Em 2022, além de campeão e vice-campeão nacional de Free Jump, alcançou o quinto lugar no ranking africano da modalidade.

Foi convocado para representar Angola no Campeonato Africano do Egipto e no Campeonato Mundial da Argentina, mas acabou por não participar devido à falta de financiamento. Ainda assim, orgulha-se de ter representado o Cubango a nível nacional, província que, segundo diz, “o fez crescer e continuar a acreditar”.

Para 2026, os planos passam pela organização de um campeonato provincial e pela participação regular nas provas da Federação Angolana de Patinagem. O grande sonho, confessa, é ver um dos seus atletas a competirem em palcos nacionais e internacionais.

“Um dos desafios é que, dentro de cinco ou dez anos, gostaria de ver o projecto mais organizado, estruturado e reconhecido, assim como receber contactos de antigos atletas que passaram por mim tornando-se campeões ou referências na modalidade da patinagem nacional”, concluiu.

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