
Há uma certa resistência, quase palpável, sempre que se fala de gestão de projectos em Angola. Não por falta de conhecimento e muito menos de discurso. Aliás, apesar de algumas instituições já abordarem abertamente a gestão de projectos e a implementação de PMOs no país, promovendo conceitos, formações e estruturas formais, a realidade no terreno continua a contar outra história.
Os termos estão aí, bem pronunciados em reuniões, discursos e relatórios: planeamento, cronograma, orçamento. O problema é outro. É mais profundo. E talvez mais incómodo: por que continuam tantos projectos a falhar, mesmo quando “tudo parece certo” no papel?
A resposta, que poucos ousam encarar, não é técnica. É cultural.
Em muitos casos, o projecto nasce antes da ideia amadurecer. Decide-se avançar antes de compreender. Anuncia-se antes de estruturar. E, quando finalmente se tenta organizar o que já começou torto, entram em cena prazos políticos, pressões hierárquicas e expectativas inflacionadas que transformam qualquer metodologia num simples ritual burocrático.
Importam-se modelos internacionais, certificações e metodologias com nomes sofisticados. Fala-se de boas práticas globais como se fossem fórmulas universais. Mas, na prática, muitos desses modelos são aplicados sem adaptação, como factos elegantes que não servem ao corpo local. O cronograma existe, mas não orienta. O plano de risco é elaborado, mas não é consultado. O controlo de qualidade aparece tarde, quase sempre quando o problema já ganhou dimensão de crise.
E depois há o silêncio mais perigoso: o das pessoas.
Fala-se muito em “stakeholders”, em alinhamento e comunicação. Mas, no terreno, decisões continuam concentradas, e a informação circula mais por hierarquia do que por estratégia. O resultado é previsível: equipas desmotivadas, conflitos que não se dizem, e projectos que avançam mais por imposição do que por convicção.
Mas há uma camada ainda mais sensível e raramente discutida. Em vez de se fortalecer como comunidade, muitos profissionais da área acabam por se fechar. O conhecimento não circula, protege-se. A colaboração cede espaço a uma competição discreta, quase invisível. Cada equipa torna-se uma ilha. Cada gestor, um guardião do seu próprio território.
Este bloqueio silencioso cobra um preço alto. Repete-se o erro que já foi cometido ao lado. Reinventa-se o que já estava feito. Perde-se tempo, energia e, sobretudo, oportunidade de evoluir como sector.
E, no meio disso tudo, surge uma outra fragilidade: a linha ténue entre competência e confiança. Nem sempre quem lidera projectos é quem está mais preparado para o fazer. Muitas vezes, o critério não é técnico, mas relacional. O gestor transforma-se num executor de ordens, sem autonomia para questionar, sem espaço para liderar.
Ainda assim, há algo que distingue Angola e que, paradoxalmente, tanto ajuda quanto atrasa: a capacidade de adaptação. Em condições adversas, com recursos limitados e sob pressão constante, as equipas conseguem entregar. Fazem acontecer. Resolvem. Improvisam.
E é precisamente aí que reside o perigo.
Quando o improviso funciona, ele seduz. Quando resolve, ele legitima-se. E, pouco a pouco, substitui o planeamento. O que deveria ser excepção torna-se regra. O que era esforço extraordinário vira método.
No fim, o sucesso pontual encobre um problema estrutural.
Mudar este cenário exige mais do que formações ou certificados. Exige mudança de mentalidade. Planeamento precisa deixar de ser visto como formalidade e passar a ser entendido como decisão antecipada. Profissionais precisam ser formados para pensar, não apenas para aplicar modelos. E, sobretudo, é urgente quebrar o ciclo de isolamento entre quem deveria estar a construir junto o País.
Talvez o maior desafio não seja técnico, nem financeiro, nem sequer institucional. É humano.
Porque, no fundo, Angola não carece de talento. Nem de vontade. Nem de capacidade de execução. O que falta e isso custa admitir é colaboração estruturada.
Enquanto persistir a lógica de competir onde se deveria cooperar, a gestão de projectos no País continuará a ser um campo de tensão invisível. E os projectos, esses, continuarão a tropeçar não por falta de ferramentas… mas por excesso de silêncio.