Quando o improviso vence o planeamento: o drama silencioso dos Profissionais Gestão de Pojectos

Manuel Praia, CEO Portal PMO Angola

Há uma certa resistência, quase palpável, sempre que se fala de gestão de projectos em Angola. Não por falta de conhecimento e muito menos de discurso. Aliás, apesar de algumas instituições já abordarem abertamente a gestão de projectos e a implementação de PMOs no país, promovendo conceitos, formações e estruturas formais, a realidade no terreno continua a contar outra história.

Os termos estão aí, bem pronunciados em reuniões, discursos e relatórios: planeamento, cronograma, orçamento. O problema é outro. É mais profundo. E talvez mais incómodo: por que continuam tantos projectos a falhar, mesmo quando “tudo parece certo” no papel?

A resposta, que poucos ousam encarar, não é técnica. É cultural.

Em muitos casos, o projecto nasce antes da ideia amadurecer. Decide-se avançar antes de compreender. Anuncia-se antes de estruturar. E, quando finalmente se tenta organizar o que já começou torto, entram em cena prazos políticos, pressões hierárquicas e expectativas inflacionadas que transformam qualquer metodologia num simples ritual burocrático.

Importam-se modelos internacionais, certificações e metodologias com nomes sofisticados. Fala-se de boas práticas globais como se fossem fórmulas universais. Mas, na prática, muitos desses modelos são aplicados sem adaptação, como factos elegantes que não servem ao corpo local. O cronograma existe, mas não orienta. O plano de risco é elaborado, mas não é consultado. O controlo de qualidade aparece tarde, quase sempre quando o problema já ganhou dimensão de crise.

E depois há o silêncio mais perigoso: o das pessoas.

Fala-se muito em “stakeholders”, em alinhamento e comunicação. Mas, no terreno, decisões continuam concentradas, e a informação circula mais por hierarquia do que por estratégia. O resultado é previsível: equipas desmotivadas, conflitos que não se dizem, e projectos que avançam mais por imposição do que por convicção.

Mas há uma camada ainda mais sensível e raramente discutida. Em vez de se fortalecer como comunidade, muitos profissionais da área acabam por se fechar. O conhecimento não circula, protege-se. A colaboração cede espaço a uma competição discreta, quase invisível. Cada equipa torna-se uma ilha. Cada gestor, um guardião do seu próprio território.

Este bloqueio silencioso cobra um preço alto. Repete-se o erro que já foi cometido ao lado. Reinventa-se o que já estava feito. Perde-se tempo, energia e, sobretudo, oportunidade de evoluir como sector.

E, no meio disso tudo, surge uma outra fragilidade: a linha ténue entre competência e confiança. Nem sempre quem lidera projectos é quem está mais preparado para o fazer. Muitas vezes, o critério não é técnico, mas relacional. O gestor transforma-se num executor de ordens, sem autonomia para questionar, sem espaço para liderar.

Ainda assim, há algo que distingue Angola e que, paradoxalmente, tanto ajuda quanto atrasa: a capacidade de adaptação. Em condições adversas, com recursos limitados e sob pressão constante, as equipas conseguem entregar. Fazem acontecer. Resolvem. Improvisam.

E é precisamente aí que reside o perigo.

Quando o improviso funciona, ele seduz. Quando resolve, ele legitima-se. E, pouco a pouco, substitui o planeamento. O que deveria ser excepção torna-se regra. O que era esforço extraordinário vira método.

No fim, o sucesso pontual encobre um problema estrutural.

Mudar este cenário exige mais do que formações ou certificados. Exige mudança de mentalidade. Planeamento precisa deixar de ser visto como formalidade e passar a ser entendido como decisão antecipada. Profissionais precisam ser formados para pensar, não apenas para aplicar modelos. E, sobretudo, é urgente quebrar o ciclo de isolamento entre quem deveria estar a construir junto o País.

Talvez o maior desafio não seja técnico, nem financeiro, nem sequer institucional. É humano.

Porque, no fundo, Angola não carece de talento. Nem de vontade. Nem de capacidade de execução. O que falta e isso custa admitir é colaboração estruturada.

Enquanto persistir a lógica de competir onde se deveria cooperar, a gestão de projectos no País continuará a ser um campo de tensão invisível. E os projectos, esses, continuarão a tropeçar não por falta de ferramentas… mas por excesso de silêncio.

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