Corredor do Lobito na vista de possiveis ponteciais para investimentos da infraestrutura

Resposável pela áreas da acção climática, eficiência energética e operações de financiamento na África Subsaariana e na região do Pacífico, Ambroise Fayolle esteve em Angola para participar na Cimeira União Europeia e União Africana, e aproveitou para avaliar o impacto do financiamento concedido ao sector da saúde para acampanha contra o cancro do colo do útero.

Em entrevista o Vice-presidente do Banco Europeu de Investimentos considera Angola um país estratégico para a Europa e para a instituição, diz-se orgulhoso da parceria e revela abertura para novos financiamentos para as áreas dasaúde, águas e energia, agricultura sustentável,inclusão digital e transportes, principalmente para projectos do Corredor do Lobito, que considera elemento estratégico para reforçar a conectividade entre a Europa e África, avançou o JA Online.

Quais são as principais áreas prioritárias de investimento do Banco Europeu de Investimentos (BEI) em Angola, actualmente?

O BEI é um parceiro de longa data de Angola, tendo iniciado as suas operações no país em1987. Desde então, assinámos sete operações que abrangem projectos dos sectores público e privado, nomeadamente telecomunicações, água e saúde. Estamos muito orgulhosos do impacto alcançado por estas intervenções. Em 2025, o Banco Europeu de Investimentos passou a apoiar a campanha de Angola contra o cancro do colo do útero, através de um financiamento de 50 milhões de euros, complementado por uma subvenção de 4,5 milhões de euros da União Europeia. Este financiamento destina-se não apenas à aquisição das vacinas necessárias, mas também ao reforço de todo o sistema de vacinação — incluindo logística para garantir a conservação das vacinas e aquisição de equipamentos.

O BEI pretende aumentar a sua carteira de financiamentos em Angola nos próximos 3–5 anos? Em caso afirmativo, em que sectores?

Identificamos um “pipeline” promissor e esperamos aumentar o financiamento, mobilizando recursos tanto do sector público como do sector privado. No entanto, o financiamento é orientado pela procura e reflecte as prioridades do Governo, bem como as áreas em que a UE e o BEI podem acrescentar valor. Estes factores determinarão, em última instância, o volume de recursos que poderemos mobilizar para Angola. Actualmente, estamos a preparar um empréstimo para financiar o tratamento de águas residuais em nove cidades costeiras do país. Estamos igualmente a analisar com atenção os projectos energéticos e de transportes do Corredor do Lobito, identificado pela UE como estratégico para melhorar a conectividade entre a Europa e África. No continente africano, o nosso enfoque incide sobre infra-estruturas essenciais — saúde, água, energia, agricultura sustentável, transportes e inclusão digital — bem como no apoio ao sector privado local. Em Angola, procuraremos prioritariamente projectos nestes sectores. Antecipamos igualmente um aumento do financiamento na África Subsaariana.

Quais são os critérios determinantes para a aprovação de projectos no país?

Procuramos parcerias mutuamente benéficas e reconhecemos o grande potencial e as inúmeras oportunidades existentes. A avaliação dos projectos inclui a análise da viabilidade financeira, dos impactos económicos, sociais, ambientais e climáticos, da viabilidade técnica, dos planos de contratação e da capacidade organizacional do promotor.

Que papel pretende o BEI desempenhar no financiamento de projectos de energias renováveis em Angola, particularmente solar e hídrica?

Acabámos de assumir o compromisso de apoiar projectos de energias renováveis em África com mais de 2 mil milhões de euros nos próximos dois anos. Existem ainda 600 milhões de pessoas no continente sem acesso à electricidade, sendo a energia vital para o desenvolvimento — para que as crianças possam estudar à noite, as vacinas sejam mantidas refrigeradas, os hospitais funcionem 24 horas e as pessoas possam criar negócios. A África em geral, e Angola em particular, têm um enorme potencial em energias renováveis. Esperamos, por isso, poder contribuir para transformar alguns destes projectos em realidade.

Pode o BEI apoiar o desenvolvimento de infra-estruturas energéticas para melhorar a electrificação rural?

Sim. Recentemente assinámos um empréstimo de 39 milhões de euros para financiar a expansão da energia eólica em Cabo Verde, incluindo sistemas de armazenamento de energia por baterias em quatro ilhas e uma linha de transmissão de 2,6 km a 20 kV. O projecto promove a exportação de tecnologia e conhecimento da UE e contribui para a transição de Cabo Verde para uma economia de baixo carbono, aumentando a quota de energias renováveis de aproximadamente 20% para 30% até 2025, além de reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados. Outro exemplo é a Mauritânia, onde assinámos recentemente um empréstimo de 90 milhões de euros para apoiar a construção de uma linha de transmissão de 225 kV com 600 km de extensão, que permitirá ligar comunidades rurais e integrar centrais solares no sistema eléctrico nacional. Complementado com uma subvenção de 35 milhões de euros da UE, o projecto deverá reforçar a fiabilidade e a segurança da rede.

Uma das prioridades de Angola durante a sua presidência da União Africana é o desenvolvimento de infra-estruturas. O BEI está aberto a financiar infra-estruturas de transporte ou mobilidade urbana em Angola, como caminhos-de-ferro, portos ou redes rodoviárias?

Sim. No âmbito do desenvolvimento de infra-estruturas, estamos actualmente a preparar um empréstimo para o tratamento de águas residuais em nove cidades costeiras e a analisar de perto potenciais investimentos nos projectos do Corredor do Lobito. No domínio da mobilidade urbana, estamos particularmente interessados em projectos de transporte sustentável.

Como avalia o BEI o potencial de Angola como plataforma logística regional (Atlântico Sul, África Austral)?

O Corredor do Lobito é um exemplo central desta perspectiva, sendo considerado pela União Europeia um corredor estratégico para reforçar a conectividade entre a Europa e África.

Como pretende o BEI apoiar o desenvolvimento do ecossistema das PME em Angola, incluindo o acesso ao crédito e instrumentos financeiros inovadores? Existe abertura para expandir linhas de crédito através de bancos locais ouprogramas de garantia destinados a empresas privadas?

Sim, certamente. Em parceria com principais instituições financeiras locais, conseguimos também financiar pequenas empresas. A nossa iniciativa She Invest Africa, lançada com o African Guarantee Fund, permitiu desbloquear mais de 200 milhões de euros em financiamento para empresas lideradas por mulheres, contribuindo para reduzir a desigualdade de género no acesso ao financiamento.

O BEI considera Angola um país prioritário para o financiamento de cadeias de valor agro-industriais e projectos de segurança alimentar?Quais são os requisitos típicos para financiar projectos agrícolas de grandeescala em mercados emergentes como Angola?

Um exemplo é a Costa do Marfim, onde, em Janeiro, o BEI anunciou um empréstimo intermediado de 100 milhões de euros com o Banque Nationale d’Investissement. O financiamento visa promover o emprego jovem, a igualdade de género e o sector do cacau. Cerca de um terço dos recursos será destinado a produtores certificados de cacau e a empresas que processem e exportem cacau sustentável.

Existem planos para apoiar projectos de transformação digital, telecomunicações e inclusão financeira digital em Angola?

Actualmente não temos projectos em avaliação nessas áreas, mas podemos mencionar exemplos de Madagascar e Tanzânia. Este ano anunciámos um pacote de financiamento de 100 milhões de dólares para a AXIAN Telecom, destinado a expandir a infraestrutura de banda larga móvel 4G em ambos os países e prosseguir a introdução da cobertura 5G.

O BEI está a considerar instrumentos específicos para startups tecnológicas ou inovação digital no país?

O BEI apoia o mercado africano de capital de risco desde o final dos anos 1990, tendo investido até agora 3,8 mil milhões de euros em 178 fundos com foco no continente. Estes investimentos iniciais e catalisadores permitiram mobilizar mais de 32,4 mil milhões de euros de outros investidores, que por sua vez financiaram diversas startups e empresas africanas de elevado crescimento. Um dos exemplos é o programa Boost Africa. Com o apoio da Comissão Europeia e em colaboração com o Banco Africano de Desenvolvimento, contribuímos para colmatar a lacuna de financiamento em fases iniciais, combinando investimento de capital e mecanismos de mitigação de risco, com capacitação técnica para gestores de fundos e fundadores de empresas. O programa visa modelos de negócio inovadores e startups lideradas por jovens e mulheres, especialmente em sectores onde a inovação digital tem impacto directo na qualidade de vida.

Como trabalha o BEI com os governos para melhorar a execução, monitorização e conformidade dos projectos financiados?

Uma das vantagens de trabalhar com o BEI é a possibilidade de complementar os empréstimos com subvenções da UE, que podem assumir diversas formas, incluindo assistência técnica e serviços de consultoria para reforçar as capacidades locais. Isto inclui a partilha de conhecimento para melhorar a preparação, execução e gestão de projectos.

Como pretende o BEI coordenar os seus investimentos com instituições como a União Europeia, o BAD, o FMI ou o Banco Mundial no contexto angolano?

Enquanto banco da UE, todos os nossos investimentos são aprovados pelo Conselho de Administração, constituído por representantes dos 27 Estados-Membros, em estreita coordenação com a Comissão Europeia. O Banco Mundial e o Banco Africano deDesenvolvimento são parceiros fundamentais em muitos projectos no continente eesperamos reforçar ainda mais esta cooperação.

Existem oportunidades para parcerias público-privadas envolvendo empresaseuropeias em Angola, no âmbito do financiamento do BEI?

Sim, sobretudo no desenvolvimento de infra-estruturas que melhorem a eficiência e eficáciados serviços prestados às empresas e aos cidadãos, tirando partido dos vastos recursosminerais do país e da sua localização geoestratégica. Isto deverá promover umdesenvolvimento local inclusivo e sustentável, incluindo um reforço da colaboração e daconectividade com a Europa.

17. Como vê o BEI Angola no âmbito da estratégia europeia para África até 2030 —como país prioritário, como economia emergente com potencial ou comomercado ainda em consolidação?

Angola é um país estratégico e o BEI pretende aprofundar a sua parceria com o país. A UEé um parceiro importante para Angola — sendo o maior exportador para o mercadoangolano e o segundo maior parceiro comercial. Esta relação cria um vasto leque deoportunidades para o BEI reforçar os laços comerciais e de investimento, nomeadamenteatravés do desenvolvimento de infra-estruturas.

Perfil

Ambroise Fayolle

Nascido em França em Agosto de 1965

Vice-Presidente do BEI desde 2015

Supervisiona as seguintes áreas:

•Acção climática e Transição Justa

•PMEs e eficiência energética

•EIB Global: Operações de financiamento na África Subsaariana (em conjunto com o Vice-Presidente Östros) e na região do Pacífico

•Responsabilidade geral pelas relações institucionais com a França e contribuir para o desenvolvimento de negócios em benefício do Grupo BEI

Março de 2013 – Fevereiro de 2015: Director executivo da Agence France Trésor, Ministério das Finanças, Paris

2007-2013: Director Executivo para a França nos Conselhos do FMI e do Banco Mundial, Washington D.C.

2005-2007: Secretário assistente para Assuntos Multilaterais e Desenvolvimento, Departamento do Tesouro, Ministério das Finanças, Paris; Co-presidente do Paris Club e sous-sherpa do G8

2003-2005: Director assistente, Departamento da África e Departamento de Desenvolvimento e Revisão de Políticas, FMI, Washington D.C. 2001-2003: Sub-secretário assistente para Dívida, Desenvolvimento e Países Emergentes, Departamento do Tesouro, Ministério das Finanças, Paris; Secretário-Geral do Clube de Paris / Vice-Presidente do Clube de Paris

1997-2001: Chefe de Divisão, Financiamento Governamental e Assuntos Monetários, Departamento do Tesouro, Ministério das Finanças, Paris

1995-1997: Director Executivo Alternativo, FMI, Washington D.C.

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