
Ramiro Maia, português radicado em Angola há 14 anos, em entrevista sobre a iniciativa que tenciona acolher mais crianças e replicar pelo país, disse que “O Sabichão” “é um dos mais inovadores centros de explicações e formação actualmente em funcionamento na província do Namibe.”, segundo avançou o JA Online.
Com a referida iniciativa, o criador pretende inverter e inovar com um modelo que visa transformar, de forma silenciosa e progressiva, o modo como muitas crianças de Moçâmedes encaram a aprendizagem.
O centro reúne nove professores – angolanos e portugueses – e acolhe 140 alunos, número que o responsável pretende duplicar nos próximos anos.
A estratégia passa por expandir o projecto para outras províncias, oferecendo um ensino mais prático, abrangente, em conformidade com a Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino vigente em Angola e alinhado aos padrões internacionais.
“O Sabichão é o superlativo de sábio”, explicou o fundador, ao justificar a escolha do nome com a expressão aqui usada para enaltecer o saber.
Para Ramiro Maia, o objectivo é formar jovens conhecedores do seu mundo, atentos à realidade local e global, curiosos e capazes de pensar de forma crítica. O centro, distribuído entre o casco urbano de Moçâmedes e a urbanização da Praia Amélia, funciona como um verdadeiro laboratório de ideias, onde o rigor europeu encontra a riqueza cultural angolana.
A metodologia adoptada privilegia práticas interdisciplinares, vocabulário avançado e forte aposta nas ciências, cultura e artes. O fundador destaca que muitos alunos enfrentam dificuldades em transpor o conhecimento teórico para situações práticas, numa altura em que Angola precisa de soluções concretas para numerosos desafios, sem prejuízo para a componente teórica.
“Há crianças que não conseguem identificar um quilómetro, um metro cúbico ou compreender temperaturas. Queremos ajudá-las a transformar o que aprendem em algo vivo, aplicável no quotidiano”, sublinhou.
Precisamos de dar solução a muitos problemas que, seguramente, há muito andam estudados, analisados e com respostas idealizadas, mas sem materialização, frisou, tendo acrescentado que essa realidade resulta, algumas vezes, do hiato que existe ao nível do nosso sistema de ensino entre a parte teórica e a prática.
Da indústria à educação
Formado em Gestão Hoteleira e Produção de Cozinha, com experiência nos sectores Petrolífero e Cimenteiro, Ramiro Maia encontrou na Educação a sua verdadeira vocação. A convivência com crianças despertou-lhe a percepção de que, em seu entender, havia lacunas significativas na forma como muitos estudantes assimilavam e aplicavam os conteúdos escolares. “Eram curiosas, mas faltava-lhes o acesso a um ensino que estimulasse o pensar, criar, questionar e compreender o mundo que as rodeia. Daí nasceu ‘O Sabichão’”, recordou. Com 140 alunos e meta de atingir 300, o centro tem registado resultados encorajadores. Muitos estudantes destacam-se às escolas públicas e privadas, ocupando posições de mérito e apresentando elevado desempenho académico. “O nosso papel é suplementar o ensino que recebem. Seguimos um método europeu e as crianças ganham”, referiu o director.
Ao comparar os sistemas educativos de Portugal e Angola, Ramiro Maia disse identificar diferenças substanciais. Segundo afirmou, conteúdos ensinados na terceira ou quarta classe em Portugal só são apresentados na sexta classe em Angola, o que reduz o ritmo da aprendizagem.
Para colmatar essa lacuna, o centro aplica um modelo híbrido que respeita o contexto local, mas introduz padrões internacionais de exigência. “Não tivemos reprovações até agora. Com o acompanhamento certo, qualquer criança pode
Novas fronteiras e expansão
O futuro de “O Sabichão” contempla a inclusão de Informática Avançada, Empreendedorismo e Literacia Financeira – áreas consideradas essenciais para o século XXI. Há, igualmente, planos para a expansão às províncias da Huíla, Benguela e Luanda, além da criação de uma biblioteca pública no Namibe e da introdução de línguas nacionais no currículo. “Vivemos num mundo dominado pela Tecnologia e pelas Finanças. Ensinar essas competências é preparar os alunos para gerir a própria vida com autonomia”, destacou.
O centro não se limita à formação académica. Durante o período natalício, promove actividades solidárias dirigidas às crianças desfavorecidas, promovendo um espírito de partilha e empatia entre estudantes de diferentes origens.
“A ideia é cultivar valores de interajuda, solidariedade e amor ao próximo, que hoje se tornam cada vez mais raros”, explicou Ramiro.
Num cenário em que a qualidade do ensino continua a ser um desafio nacional, “O Sabichão” apresenta-se como um exemplo promissor de inovação educativa.
Mais do que transmitir conteúdos, o projecto procura despertar mentes, formar carácter e criar pontes entre o local e o global. “Queremos criar sabichões, no sentido de pessoas cultas e que sabem muito”, concluiu o fundador.