
“A dor era insuportável”, disse Abel ao recordar-se das noites mal dormidas ao relento e do seu rosto quase desfigurado pelo estado avançado do problema no dente, avançou o JA Online.
Dias depois, Olga Leite, carinhosamente tratada por madrinha, regressou ao local com a esperança de encontrar o menino recuperado, mas ao vê-lo, apercebeu-se que nada tinha mudado, pelo contrário, o rosto só inflamara ainda mais. Condoída, levou o rapaz a um lar onde passou a noite, para no dia seguinte levá-lo à consulta.
“Primeiro fomos a uma clínica, sem sucesso. Fomos ao Hospital do Prenda, a mesma coisa; até que fomos ao Hospital Josina Machel (“Maria Pia”) onde encontramos o doutor Ângelo que aceitou dar tratamento ao caso”, disse Olga Leite à reportagem do Jornal de Angola.
Abel Baptista recorda que primeiro teve de cuidar da infecção aguda na pele, que o impedia de passar logo pela cirurgia, considerada pelos médicos de grande complexidade.
“Os padrinhos sempre estiveram aí para apoiar-me”, reconheceu satisfeito. Internado no Hospital Pediátrico David Bernardino (HPDB), o menino Abel sarou das infecções e em Fevereiro de 2024 foi finalmente operado do problema no dente.
Da sobrevivência à transformação
Os dias no hospital pareciam longos demais. Era como se o tempo estivesse parado. As horas eram longas, o silêncio pesava. E a ausência dos familiares tornava tudo ainda mais difícil.
Foi assim que Olga Leite e mais duas amigas, Leonor Patraquim e Ana Nobre, decidiram ensinar Abel a ler e a escrever, ali mesmo, na cama do hospital.
Dessa experiência surgiu o Projecto Abel, uma iniciativa com o objectivo de levar educação a crianças hospitalizadas, inicialmente no Hospital Pediátrico David Bernardino, em Luanda.
As três mentoras não “caíram de pára-quedas”. Elas exerceram o voluntariado no referido hospital, sendo a Leonor a mais antiga na missão solidária.
A experiência permitiu-lhes ver que muitas crianças ficam internadas no hospital por muito tempo, algumas das quais com doenças crónicas ou congénitas. E muitas delas são provenientes de outras províncias.
“Em meio a tudo isso, percebemos que algo estava em falta. O ambiente escolar fazia-lhes falta”, contou Leonor, que estava acompanhada de Olga. “O foco principal foi retirar as crianças do ambiente das enfermarias, das batas brancas, injecções, medicação e criar uma área de aprendizado, amor, diversão, jogos, empatia e de interacção com os professores”.
Escola em ambiente hospitalar
As mentoras avançaram que na mesma época, 2024, apresentaram o plano intitulado “Projecto Abel” ao Gabinete da Acção Social e à direcção-geral do Hospital Pediátrico David Bernardino, que abraçaram a iniciativa.
A direcção-geral do HPDB disponibilizou, imediatamente, um dos compartimentos da instituição, para o efeito. A sala, simples e pequena, ligada a uma varanda, despensa e um banheiro, ganhou vida a cada gesto de solidariedade. “A partir daí, encontramos parceiros que fizeram as obras de requalificação e equiparam a sala”, realçou Leonor Patraquim.
A sala está equipada com carteiras, um quadro, biblioteca e uma área com brinquedos. Na varanda foram adaptadas duas mesas infantis para o aprendizado dos mais pequenos, árvore dos parceiros e painel para tirar fotografias, enquanto a despensa é usada para guardar os materiais doados e realizar as refeições.
Inicialmente, a equipa fez um teste durante alguns meses para medir a afluência das crianças à sala de aula. Em Outubro de 2025 o projecto ganhou estrutura. As três mentoras/voluntárias deixaram de trabalhar sozinhas e passaram a contar com três professores experientes contratados. É o caso de Cremilde Domingos, formada em Enfermagem, com curso básico de Pedagogia e Educação Infantil, que assume os cargos de coordenadora do projecto e também de professora. Gilcea, com a cadeira de Inglês e Evaristo, com Língua Portuguesa e Matemática, são dois jovens que viram no projecto uma fonte de renda. Os três docentes são pagos directamente por parceiros do projecto. “Nós não ficamos com nenhum dinheiro dos parceiros. Recebemos apenas materiais de trabalho. Em relação a tudo que envolve dinheiro, o parceiro interage directamente com o beneficiário”, revelou Leonor Patraquim.
Teresa, Marcelino e Fausto participam como voluntários do Projecto Abel. Teresa dá aulas de Música, Marcelino de Artes e Desenho e Fausto, antigo paciente do hospital, auxilia com programas de reciclagem de materiais.
Julieta Cassova, nove anos, é uma das alunas do projecto. A menor foi transferida do Bié para Luanda para operar um tumor na cabeça. Enquanto aguarda pela cirurgia, Julieta aproveita os tempos livres para assistir às aulas no âmbito do projecto.
Aluna da segunda classe, a menor revelou que as aulas a têm ajudado no aprendizado da leitura e da escrita, inclusive a conhecer palavras em Inglês. “Já sei falar algumas coisas em Inglês. Estou muito feliz, principalmente pelo carinho que recebo das professora e das tias”, disse Julieta, sentada na carteira, com uma toca cor-de-rosa que lhe cobria parte do rosto afectado pelo tumor.
Naquela tarde, Julieta partilhava a carteira com a colega e amiga Áurea dos Santos, também de nove anos. Com uma voz meiga, Áurea contou que quer muito ser cientista. Apesar do problema de saúde que a leva a ficar internada no hospital, o seu sonho continua em pé. “É o meu primeiro dia, mas estou muito feliz e vou continuar a vir enquanto estiver aqui internada”, disse.
Na turma também estavam Justino Leão e Davi Caetano, ambos de nove anos, e Flávio Sozinho, 10 anos.
Crianças que fazem hemodiálise
As crianças que fazem hemodiálise não estão isentas do projecto educacional. Em caso de indisponibilidade devido ao procedimento médico, os professores vão ao encontro dos menores para contar-lhes histórias, estimular brincadeiras e outras actividades lúdicas.
A professora Cremilde Domingos explicou que métodos como contar histórias cativantes, cantar e desenhar “despertam a criança para uma realidade mais colorida e de menor sofrimento”.
Pessoas disponíveis
Encontrar pessoas disponíveis a apoiar é o grande desafio que as três mentoras do Projecto Abel enfrentam. Outro desafio centra-se na consciencialização dos enfermeiros, médicos e, principalmente, dos pais dos meninos e meninas sobre a importância do projecto.
“Foi um processo difícil, mas hoje os pais estão muito agradecidos e felizes ao verem os filhos mais alegres e entusiasmados”, afirmou uma das mentoras.
Luísa Manuel, mãe de Domingos Manuel, de 11 anos, partilhou a satisfação de ver o filho a aprender mesmo na situação delicada de saúde em que se encontra. “Meu filho tem uma massa nasal e enquanto aguardávamos pela cirurgia e mesmo depois dela, ele participa das aulas com muito entusiasmo”, contou, realçando a importância do projecto. “Ele aprendeu a pronunciar algumas palavras em Inglês, isso deixa-me muito feliz”.
A mãe da menina Joana, a senhora Conceição, afirmou estar orgulhosa da filha. “Os colegas dela de quarto disseram-me ‘tia, a Joana é muito boa em Matemática’. Isso deixou-me muito feliz e, a partir daí, eu e o meu esposo decidimos conhecer a sala de aula e os professores e gostámos muito do que vimos”, frisou.
Expansão e apoio
Dentro em breve, o Projecto Abel vai abrir uma sala de informática no interior do HPDB. “Conseguimos computadores em Portugal, que foram transportados pela TAP. Dentro em breve vamos abrir a sala de Informática aqui mesmo no hospital”, revelou Olga Leite.
A direcção do Projecto decidiu, também, expandir a iniciativa para fora do HPDB, com a instalação de uma biblioteca e uma creche no interior de uma escola localizada nas proximidades, para atender crianças carenciadas. “Pensamos também em servir por dia refeições para 30 crianças carenciadas, porém, precisamos do apoio de parceiros para arcar com os custos de um professor que vai apoiar com explicações e trabalhos escolares antes dos meninos irem para casa”, avançou Olga Leite.
Em relação aos apoios, a mentora destacou a companhia aérea portuguesa TAP, que, segundo disse, “tem sido essencial neste processo, pois muitas crianças vêm de outras províncias e as mães, na sua maioria, ficam desprotegidas por falta de familiares que as auxiliem na estadia no hospital”.
A sala actualmente em funcionamento no HPDB conta com rede de internet e uma TV plasma instalada pela Africell, com a assinatura de programas de um ano de duração.
“Não descartamos a hipótese de levar esse projecto a outras unidades sanitárias, mas, para isso, precisamos de apoio. Em tudo que vamos construindo dependemos dos parceiros”, afirmou Leonor Patraquim.
Certificação institucional
Olga Leite explicou que os ministérios da Educação e da Saúde estão a trabalhar em parceria para o reconhecimento da actividade do Projecto Abel.
“O Ministério da Saúde esteve cá na apresentação do projecto, consideraram-no interessante, e, desde então, têm acompanhado a evolução do mesmo”, disse Olga Leite, acrescentando que o objectivo é que o ensino ministrado na referida sala seja reconhecido no exterior do hospital.
Sem precisar o número de crianças que já beneficiaram do projecto, Olga Leite explicou que o processo é rotativo devido a especificidade do local. Porém, normalmente, são crianças de um aos 15 anos. Segundo a mentora, só deve participar nas aulas a criança hospitalizada no David Bernardino, porém, pacientes com alta médica podem visitar o projecto sempre que quiserem.
“Quando morre alguma criança, é muito duro para todos nós, porque estamos habituados com elas”, frisou. “Essa missão despertou em mim o verdadeiro significado do amor pela vida”, enfatizou.
A coordenadora e professora Cremilde Domingos explicou que está a ser “uma grande experiência” trabalhar com crianças hospitalizadas. Além de dar aulas de Língua Portuguesa e Matemática, Cremilde faz o acompanhamento dos adolescentes que já se encontram a frequentar a 10ª ou a 11ª classes. “Mais que um aprendizado, essa missão está a despertar em mim o verdadeiro significado do respeito pela vida, porque vai muito além do que poderíamos imaginar na carreira de docência”.
Cremilde contou ainda que já trabalhou antes como professora, mas estar no Projecto Abel é uma realidade completamente diferente. “Nos colégios temos crianças saudáveis e de vez em quando uma fica doente e vai para casa. Já aqui é um contacto directo com elas internadas, umas que nunca foram antes à escola e estão numa idade em que já poderiam estar a fazer a quarta, a quinta, a sexta classe, mas nunca tiveram a oportunidade de ir à escola”.
A jovem docente detalhou a sua experiência em lidar com crianças doentes. “Elas ficam entusiasmadas com os lápis e cadernos, o que nos deixa perplexos. Mas entende-se, porque muitas delas nunca foram à escola”, disse, realçando que o processo de aprendizagem é lento, também por conta da medicação.
Cremilde fazia parte de uma associação de leitura, quando recebeu o convite para trabalhar no Projecto Abel. Aceitou imediatamente, por considerar estar diante de uma oportunidade de viver novas experiências. “Além de ser enfermeira, no projecto anterior já lidávamos com crianças com necessidades especiais”.
A professora esclareceu que as crianças não são obrigadas a frequentar a sala de aula. Apontou a resistência dos pais e de alguns profissionais de Saúde como um dos principais entraves no processo de alfabetização e ensino em ambiente hospitalar.
“Muitos profissionais acreditam que esse processo pode ajudar a espalhar doenças entre eles, mas nós, em particular, enquanto profissionais de Saúde, levamos em conta a patologia da criança e mantemos o ambiente propício para o aprendizado”, esclareceu.
ELSA GOMES
Direcção do Hospital Pediátrico
destaca a segurança sanitária
Em relação à segurança sanitária, a directora-geral do Hospital Pediátrico David Bernardino, Elsa Gomes, garantiu ao Jornal de Angola que a maioria das crianças não apresenta doenças infecciosas, o que afasta riscos de contágio. Além disso, são mantidos elevados padrões de higiene e controlo do ambiente. “Não há risco de contaminação. Tudo é cuidadosamente monitorizado para garantir a segurança dos pacientes e dos professores”, assegurou.
A conciliação entre tratamentos médicos e actividades escolares também é feita de forma rigorosa. As crianças seguem horários definidos para medicação, alimentação e aulas, permitindo um equilíbrio entre cuidados de saúde e aprendizagem.
Para Elsa Gomes, o impacto do Projecto Abel é visível no comportamento das crianças. “Antes víamos crianças tristes e cabisbaixas. Hoje são mais alegres, comunicativas e activas. A escolinha veio ocupar um espaço importante, afastando-as do isolamento e da preocupação constante com a doença”, explicou.